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O neoliberalismo se sustentou sobre dois pilares fundamentais que se tornaram "verdade" para todo o sempre, ao menos para os menos avisados. O primeiro deles é o que proclamava o império do "deus mercado", que tudo podia e se auto-regulava, para o qual a presença do Estado – que precisava ser mínimo – e de controle social era um impedimento para o desenvolvimento pleno das forças produtivas, além de um incômodo desnecessário. O mesmo Estado que, contraditoriamente, no auge da crise financeira mundial, foi grandioso e generoso para com bancos e grandes corporações.
O segundo apoiava-se na tese de que a reestruturação produtiva traria "qualidade total" aos produtos, satisfação do cliente e maior participação dos trabalhadores no processo produtivo, dando origem ao "trabalhador flexível", que dominaria todos os passos da produção e se tornaria um "colaborador" satisfeito.
Parece, entretanto, que a queda de Wall Street não deixou a nu apenas o ideário econômico neoliberal. Também no mundo do trabalho e da produção a queda da "torre de papel" começa a aparecer.
Dias atrás, o presidente da Toyota veio à imprensa pedir desculpas a seus consumidores e aos trabalhadores pela falta de qualidade de seus carros que, recentemente, levou à morte 52 pessoas somente nos Estados Unidos por acidentes provocados por falhas mecânicas.
Mas não é só lá que os empresários deveriam pedir desculpas aos consumidores e aos trabalhadores. Aqui, no Brasil, o noticiário estampa que "o país já fez, em 2010, metade dos recalls de carros de 2009". O que de fato está acontecendo?
Hitler dizia que "uma mentira precisa ser dita tantas vezes até que ela se torne uma verdade". Frase que se confronta com o dito popular "mentira tem perna curta". Nem sempre a perna é tão curta assim, mas também é fato que não é possível manter a mentira por tanto tempo.
A partir dos anos 1970, com a crise do capitalismo, uma nova estruturação produtiva foi aos poucos sendo implantada para garantir taxas de lucros cada vez maiores. O chamado Toyotismo, cuja concepção é atribuída a um engenheiro da fábrica da Toyota, apregoava três questões fundamentais para a sobrevivência no mercado: qualidade total, satisfação plena do cliente e ambiente de trabalho melhor.
Não é de hoje que o movimento sindical vem alertando que a super exploração do trabalho, ditada por um ritmo desumano de produção; por novas atribuições como controle de qualidade; por freqüência ao trabalho ainda que isso signifique produzir com um atestado médico no bolso; e por metas cada vez mais absurdas estão prejudicando a saúde do trabalhador, sobretudo a saúde mental, que já se constitui na terceira maior causa de afastamentos pelo INSS por doenças do trabalho.
E não venham dizer que as empresas não sabem o que estão gerando. Antes de apostar na boa fé, é necessário observar como anda a rotatividade da mão-de-obra no setor fabril, o tempo médio de trabalho nas fábricas e o tempo que um trabalhador leva para ser "mutilado" pelo ritmo da produção. Vamos ver que algo de muito estranho e premeditado está acontecendo.
Mas, enquanto os adoecidos são esquecidos e lançados à própria sorte e somente os sindicatos alertam sobre as condições a que estão submetidos estes trabalhadores, a sociedade parece ainda não ter se dado conta do problema e os alertas têm sido insuficientes para fazer com que se perceba que a torre está ruindo. E por que mesmo?
Porque a qualidade é uma falácia. A cada dia que passa, compramos produtos de menor durabilidade para manter o ritmo de consumo exacerbado. E a dita qualidade, na interpretação do empresariado, nada mais é do que a padronização dos produtos nas diversas plantas industriais das corporações, para permitir a exploração do trabalho e pressionar para baixo a remuneração geral, principalmente em países que não possuem uma rede de proteção ao trabalhador.
O consumidor, que é levado a crer que está comprando um produto exclusivo, nunca comprou um pacote tão pronto. Só muda a fachada.
Quanto ao trabalhador, o que se percebe é que nunca antes se trabalhou tanto quanto nos dias atuais. O ritmo, por sua vez, é ditado por uma lógica em que a demanda pelo produto é o que estabelece quantos carros por hora precisam ser produzidos com a mesma quantidade de trabalhadores. Quando a demanda cai, demite-se. Sem que, diante da retomada da produção, se volte a contratar – simplesmente, acelera-se o ritmo para os que permanecem empregados.
É preciso que, à luz da sociedade que desejamos construir, saibamos dizer se é este o modelo que continuará a prevalecer. Seus resultados estão expostos para quem quiser enxergar: super exploração do trabalho e, por conta disso, baixa qualidade dos produtos, alienação e adoecimento dos trabalhadores e insatisfação e medo dos clientes.
Onde ficam a qualidade total, a centralidade da vida e a dignidade do ser humano? Historicamente, o capitalismo está superado, mas, como um prédio em ruínas, precisa ser dinamitado. Do contrário, continuará mutilando.
Mauricio Flavio Koller da Rocha
Assessor de Formação do Sindicato dos Metalúrgicos de Betim
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